sábado, 29 de fevereiro de 2020

Densidade da alma

17/01/20 11:22

A busca pelo bem-estar da família e pelo êxito econômico pode cegar, fazendo com que sejam deixados de lados valores pelos quais inicialmente se acreditava e lutava? Essa é a questão fundamental do filme “Verdade e Justiça”, dirigido por Tanel Toom e indicado pela Estônia para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2020.

A narrativa, baseada em obra clássica homônima da literatura local, escrita por Anton Hansen Tammsaare, se passa no fim o século XIX e começo do XX. Tem como protagonista um jovem (magistralmente interpretado por Prilit Loog, que inicia vida nova em uma fazenda com a devotada esposa (a atriz Maiken Schmidt, que exala pureza em seu trabalho incansável).

A terra alterna a secura com os alagamentos, que formam pântanos, que praticamente inviabilizam as plantações e, em consequência, a colheita. Para ter um melhor resultado, é feito um acordo com o dono da propriedade vizinha. Mas a relação que se estabelece não é simples. É marcada pelos conflitos de todos os gêneros, dos judiciais aos físicos.

Outro fator complicador é o fato de o casal protagonista não gerar filhos, mas apenas filhas, o que constitui um sério problema em uma sociedade patriarcal. Para se sobrepor a esse ambiente hostil, o protagonista progressivamente endurece a alma e o coração num processo compreensível, mas pouco justificável.

Ao final, praticamente sozinho, começa uma nova jornada individual, cortando e retirando as árvores do pântano em uma nova tentativa de drenagem, com o único filho longe, pelo serviço militar; a primogênita morando na paróquia ao se casar com filho do visceral rival; e a segunda esposa isolada, injustamente acusada de negligente e preguiçosa.

Assim, o filme apresenta um retrato pouco animador, mas denso, da alma humana e das suas potencialidades. Posicionamentos maniqueístas, como bondade e maldade, ou justo e injusto, perdem o sentido. Cada desafio tem uma resposta, que pode não ser a melhor, mas surge como a mais sensata naquele momento. O problema é como conjugar essas ações para a construção de um melhor futuro coletivo e pessoal – se isso for possível.

  • Por Oscar D’Ambrosio*

*Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

 

OSCAR



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