quinta, 18 de julho de 2019

INTERNACIONAL

Demissão de embaixador respinga na disputa por cargo de primeiro-ministro no Reino Unido

10/07/19 23:12

A demissão do embaixador britânico nos EUA, nesta quarta (10), acirrou a crise detonada pelo vazamento de memorandos confidenciais do diplomata com críticas a Donald Trump e respingou na corrida pelo posto de primeiro-ministro do Reino Unido.

Chefe da missão do país europeu em Washington desde 2015, Kim Darroch pôs o cargo à disposição depois de o jornal Mail on Sunday divulgar mensagens em que ele classifica a gestão do presidente republicano como disfuncional e inepta.

Em um dos textos endereçados à chancelaria em Londres, o embaixador afirma: “Não pensamos de verdade que esta administração vá se tornar significativamente mais normal, […] menos imprevisível, menos conflituosa internamente, menos atrapalhada em termos diplomáticos”.

O fato de Boris Johnson, favorito a suceder Theresa May na liderança do Partido Conservador (e, por extensão, no cargo de premiê), não ter garantido a permanência de Darroch no posto contribuiu para a decisão do diplomata, noticiou a imprensa inglesa.

Em debate televisivo realizado na terça (9), o ex-ministro das Relações Exteriores teve ao menos cinco oportunidades de expressar seu apoio ao servidor britânico, mas se recusou a fazê-lo.

Enquanto isso, seu adversário e atual titular da chancelaria, Jeremy Hunt, disse que, se virasse premiê, manteria Darroch em Washington até a aposentadoria deste, prevista para o fim de 2019.

Johnson aparece com ampla vantagem nas sondagens com o eleitorado conservador. O resultado será conhecido no próximo dia 23.

Analistas afirmam que o ex-prefeito de Londres sacrificou um servidor pelo qual não tinha especial afeição (Darroch é um entusiasta da União Europeia, da qual Johnson quer subtrair o Reino Unido a todo custo) em nome da relação com o presidente Trump, que já o elogiou publicamente várias vezes.

Segundo esse raciocínio, o conservador teria deliberadamente buscado evitar uma promessa ou gesto que pudesse melindrar o republicano, com quem pretende fechar um acordo de livre-comércio que ajude a amortecer o brexit, a saída britânica do bloco europeu –isso se o “divórcio”, já adiado duas vezes, de fato se concretizar.

Na segunda (8), Trump escreveu em uma rede social que os EUA não tratariam mais com Darroch e aproveitou para alfinetar May, dizendo que o governo dela havia conduzido o processo de desligamento da UE de forma atabalhoada.

No dia seguinte, o presidente dos EUA dobrou a aposta. Chamou o diplomata de maluco e estúpido, além de voltar a criticar a suposta insensatez da primeira-ministra e seus esforços malsucedidos para obter do Parlamento britânico a aprovação do acordo fechado com a Europa (“um desastre”).

Acuado entre um anfitrião mercurial (Trump) e um futuro “patrão” indiferente (possivelmente, Johnson), o embaixador viu que não teria mais condições de atuar como interlocutor.

“Quero dar fim à especulação”, escreveu, em sua carta de renúncia. “A situação atual me impede de desempenhar meu papel como eu gostaria. Acho que, nessas circunstâncias, o caminho responsável é deixar que um novo embaixador seja nomeado.”

A atitude omissa de Johnson durante o debate de terça foi duramente criticada no Reino Unido, mesmo por correligionários dele.

“Para alguém que quer liderar ou mesmo unir o país, foi uma negligência deplorável”, afirmou o vice-chanceler Alan Duncan. “Ele queimou um diplomata fantástico em prol de interesses pessoais.”

O deputado conservador Patrick McLoughlin fez coro. “Não é edificante ver alguém que deseja ser premiê se esquivar de defender um servidor empenhado, que nada fez de errado, diante do ataque de um governo estrangeiro. Liderança envolve proteger os seus.”

O episódio causou celeuma no meio diplomático britânico porque a inclusão de críticas a certos líderes ou políticas nas comunicações internas é comum. Teme-se que outros memorandos com apontamentos sensíveis também sejam vazados.

“É importante que nossos embaixadores sejam capazes de escrever francamente aos políticos. Se eles tiverem de se preocupar como isso vai ficar nos jornais, isso representará uma mudança fundamental em como nosso sistema diplomático opera”, afirmou Liam Fox, secretário do Comércio britânico.

“Estou extremamente embravecido que um bom homem tenha sido derrubado por um vazamento terrível de documentos altamente confidenciais e por um presidente que é tão vingativo e rancoroso como Kim Darroch disse que ele era em suas comunicações altamente confidenciais”, disse Christopher Meyer, ex-embaixador britânico em Washington.

O desfecho do caso deixou a cúpula do governo muito contrariada. Na terça, May havia dito a Darroch que ele ainda tinha o respaldo de Londres.

Segundo o jornal The Guardian, a primeira-ministra avaliava na noite de quarta a possibilidade de nomear um substituto para ele, mesmo estando a dias de deixar o poder. Tudo para evitar que Johnson indique um nome de perfil mais radical (à sua imagem e à de Trump) para o posto.

“Bons governos dependem de funcionários públicos poderem dar conselhos francos e completos”, disse May, sublinhando a importância “de defendermos nossos valores e princípios, particularmente quando eles estão sob pressão”.

Após a última eleição americana, em 2016, Trump escreveu que Nigel Farage, fervorosamente pró-brexit, seria um ótimo titular para a embaixada em Washington.

Não raro ridicularizado por mídia e establishment político britânicos por causa de seu ultranacionalismo, ele viu seu cacife aumentar em maio ao vencer o braço das eleições europeias no Reino Unido com seu Partido do Brexit.

Se Johnson virar mesmo premiê e tiver de convocar eleições gerais nos próximos meses, pode precisar do apoio dessa legenda para formar um governo. A sugestão insólita de Trump, assim, pode acabar se tornando uma profecia autorrealizável.

Fonte

FolhaPress | Lucas Neves



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