quinta, 20 de junho de 2019

Crônica:

O misterioso dossiê

11/06/19 08:07

Num restaurante próximo à casa legislativa, alguns deputados ouviram rumores de um tal dossiê que iria causar uma grande reviravolta na cidade, no estado e quiçá no país.

Rodrigo Alves de Carvalho*

Preocupados com a repercussão, o presidente da câmara quis saber mais sobre esse tal dossiê, já que sua reputação não era das melhores e os negócios que fazia com a construtora local não era lá, digamos, lícita.

Convocou sua bancada para uma reunião:

– Senhores, sabemos que uma nuvem negra ronda nossos mandatos. Esse tal dossiê que está prestes a ser divulgado pode pegar qualquer um de nós de calças arriadas

Um dos deputados exacerba:

– Meu Deus! Como vou aparecer nas ruas se descobrirem minhas propinas junto ás distribuidoras de gás!

Outro mais aflito gritava ao celular para o assessor:

– Queime todos os papéis! Formate o computador! Não deixe nenhuma pista de minhas negociatas.

Porém, o dossiê em questão era tão secreto e tão revelador que nem os deputados da oposição estavam sossegados.

– Será que a bomba vai estourar do nosso lado? Só porque compramos os votos da situação para aprovarmos projetos que nos favorecia?

E para o desespero maior de todos os deputados, a imprensa ficou sabendo do tal dossiê.

Reportagens imensas, lista de suspeitos, especialistas comentando o caso. Até que um corajoso juiz decidiu de uma vez por todas revelar o tal dossiê. Foram convocados todos os deputados, todas as emissoras de TV, rádio, jornal e internet. O Fórum da cidade ficou lotado. Muitos manifestantes pró e contra o dossiê agitavam suas bandeiras e seus cartazes. O país inteiro parou para incrédulos descobrirem o que era o tal dossiê.

Foram chamados ao tribunal funcionários do restaurante onde os boatos começaram. E após algumas indagações, descobriram que o autor do dossiê era um cozinheiro chamado Everaldo.

O juiz é enfático:

– Senhor Everaldo, do que se trata esse dossiê?

– Meritíssimo, na verdade não é um dossiê e sim um Doce E. Que nada mais é que pêssegos flambados com cobertura de chocolate em calda e castanhas do Pará. Um doce que eu mesmo inventei e batizei com a primeira letra de meu nome “E”. Por isso, Doce E.

O juiz encerrou a questão aprovando o Doce E:

– Maravilhoso!

Por Rodrigo Alves de Carvalho*

 

 

Fonte

*Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado "Contos Colhidos" pela editora Clube de Autores.



Categorias: ARTIGO


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