Desde a proibição expressa de jogar durante quase quatro décadas, até os anos 70, até os comentários sexistas ouvidos pelas jogadoras hoje em dia, o museu abraça a rebeldia de seus protagonistas em uma mostra inaugurada nesta terça-feira.

A exibição “CONTRA-ATAQUE! As mulheres do futebol” leva essa nome porque, segundo a equipe de organização, não é possível repassar a história do futebol feminino no país sem falar de resistência.

“O contra-ataque é uma jogada de quem está perdendo”, lembrou a pesquisadora Aira Bonfim, uma das curadoras da exposição, em entrevista à Agência Efe. “É um golaço ter uma exibição assim, que conta, a partir da narrativa das mulheres, uma história que também pertence ao futebol geral”, completou.

De fato, a própria criação da mostra nasceu do reconhecimento de um erro pelo próprio museu, que foi inaugurado em 2008 sem ter praticamente nada da trajetória feminina em sua coleção principal. Quem admitiu a falha à Efe foi a diretora de conteúdo do espaço, Daniela Alfonsi.

A primeira parte da exposição trata da proibição da prática de futebol por mulheres, decretada em 1941 e que durou até 1979. O mesmo aconteceu em outras potências do futebol mundial, como a Alemanha, que a liberou em 1970, e a França e a Inglaterra, que o fizeram no ano seguinte.

Imagem: EFE/Sebastião Moreira

Daniela lembrou que a lei foi assinada por Getúlio Vargas durante o Estado Novo, sob a influência do ideário nazista alemão sobre a pureza da raça. O então presidente proibiu expressamente a prática do esporte pelas mulheres, que a partir estavam restritas a uma única função: a reprodução.

“Não se permitirá às mulheres a prática de desportos incompatíveis com as condições da sua natureza”, previa o artigo 54 da lei, que hoje está em destaque no começo da expressão, em letras garrafais vermelhas com fundo preto.

Através de trechos de jornais, partes de textos jurídicos que apoiavam a ideia e imagens da época, a mostra avança a partir desse ponto de partida até o ano de 1983, quando foi feita a primeira regulamentação do futebol feminino, apesar das ressalvas.

A duração de cada jogo era de 70 minutos, em vez dos 90 dos homens. A bola era menor e mais leve, e não se podia cobrar pelos ingressos. Além disso, era estritamente proibido que as jogadoras trocassem de camisa, como era e ainda é hábito entre os jogadores.

A exposição tem também um setor dedicado às grandes estrelas do futebol feminino do Brasil, como Marta, eleita a melhor do mundo seis vezes, e Cristiane, maior artilheira da história dos Jogos Olímpicos, contando homens e mulheres.

A exposição termina com um olhar para o futuro. Algumas crianças fazem um simpático convite para uma partida de pebolim, mas um pebolim especial, com jogadoras. Segundo a diretora de conteúdo, o brinquedo foi fabricado especialmente para a exposição, já que nos totós tradicionais não há um sequer que use bonecas em vez de bonecos.

Imagem: EFE/Sebastião Moreira

O espaço mais assustador da mostra é um painel com 20 telões que exibem, incessantemente, trechos curtos de jogadas em preto e branco que se intercalam com declarações retiradas de diversos veículos de imprensa.

“O futebol é um esporte violento, capaz de alterar o equilíbrio endócrino da mulher”, diz um entrevistado em um trecho do jornal “O Dia Esportivo”, em 1940. “Pode ser um passatempo, mas não um verdadeiro esporte para as mulheres”, afirma a “Folha de São Paulo” em 1979.

Mas o mais impressionante, como expôs Aira Bonfim, é que nesta parte da mostra há frases publicadas há apenas uma semana nas redes sociais.

“Seria mais atrativo se elas usassem shorts mais curtas” e “O futebol feminino não está tão ruim, eu mesmo vi um jogo e só cochilei três vezes” são algumas delas. As frases estão expostas ao lado das reproduções de jogadas de habilidade não só de brasileiras, mas de jogadoras de todo o mundo.

“Aí estão, para que o público, que é inteligente, pense: ‘Será que realmente esse corpo não é apropriado para um jogo tão bonito”, afirmou a curadora.